Sustentabilidade

A Utilização Abusiva das Escombreiras nas Minas da Panasqueira


A transmissão no noticiário da SIC da notícia “Aventura nas Minas da Panasqueira” dando conta de actividades, comummente apelidadas de radicais, nas escombreiras de mina existentes no lugar de Barroca Grande, concelho da Covilhã, suscitou alguns protestos e inclusive um abaixo assinado por parte de especialistas de Geologia e Minas da  Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG) e Universidade de Évora (UE), que se transcreve parcialmente a seguir, de forma adaptada.

Na notícia difundida, os depósitos de estéreis da Mina da Panasqueira, mais concretamente barragens de lamas aí existentes, são apresentados como montes ideais para a prática de actividades de subida e descida dos seus taludes por pessoas e veículos motorizados.

Ora, os depósitos em causa, são estruturas de contenção de milhões de toneladas de material de calibre finíssimo que, na presença de água, se transformam em lamas. E foi mesmo na forma de lama que aí foi depositado esse material, oriundo dos processos de separação de minérios extraídos da mina.

A parte da frente destes depósitos, constituída por britas e/ou gravilhas, comporta-se como barragem (tal e qual como as barragens armazenadoras de água) e é na sua retaguarda que se acumulam as ditas lamas, limitando deste modo a sua movimentação e consequente contacto com a rede hidrográfica superficial. É de referir o extremo cuidado que deve ser colocado na recolha e neutralização dos lixiviados produzidos pela circulação de águas pluviais através dos materiais depositados, impedindo a sua dispersão no ambiente.

Uma barragem, assim construída, exibe na sua face externa um talude com uma forma aproximadamente planar, apresentado um ângulo de talude natural, característico do próprio material em que a barragem é construída.



Embankement Types: (a) Upstream, (b) Centerline, (c) Downstream or Water Retention Type
Esquemas extraídos de “Planning, Design and Analysis of Tailings Dams” de Vick, S. G. (1990) – BiTch Publichers Ltd

Toda a edificação de uma barragem de lamas é regida por normas técnicas que são rigorosamente cumpridas, tal é o perigo ambiental que estes depósitos representam em caso de colapso dos mesmos. Ora a forma planar, o ângulo, a regularidade de material e a ausência de anisotropias no talude destas frentes de barragem, são características fundamentais a serem preservadas.

É sobre esta frente do depósito de lamas, um dos pontos nevrálgicos de toda a estrutura, que os praticantes das actividades noticiadas fazem as suas movimentações, alterando totalmente o equilíbrio nela existente.

Como regra de ouro em Engenharia de Minas, inequivocamente se afirma que toda a circulação de pessoas e viaturas sobre o coroamento e taludes destas barragens deve ser o estritamente necessário para a sua observação e manutenção. E mais nenhuma.

A actividade extractiva nunca termina com o final da fase produtiva da matéria-prima mineral que lhe deu origem. A manutenção dos depósitos de estéril será um encargo que perdurará no tempo para bem do ambiente e da sociedade que, directa ou indirectamente, usufrui desse bem que a natureza “ofereceu” à humanidade.

Se no passado tal prática de manutenção aeternum não estava sequer conceptualizada, jamais uma sociedade que se quer moderna e consciente da importância dos procedimentos de sustentabilidade, a poderá ignorar.

Se as actividades de manutenção das barragens de lamas pararem, estas naturalmente vão se instabilizar, podendo vir a ocorrer o seu eventual colapso.

Extremamente criticas, neste processo, são as alturas de grande pluviosidade, em que a água da chuva se precipita sobres as lamas e sobre os taludes das barragens, promovendo a sua erosão.

As consequências de tais colapsos podem ser desastrosas, uma vez que as lamas contidas se mobilizariam com rapidez em direcção às linhas de água, dispersando contaminantes, ou mesmo vindo a destruir espaços ocupados pelo homem.

Relembrem-se os acontecimentos associados aos colapsos das barragens de lamas em Aznalcóllar em Espanha (1998) e em Ajka na Hungria (2010).

O Estado Português já aplicou milhões de euros na estabilização de escombreiras de minas que tinham colapsado (ex. Mina de Jales – Vila Pouca de Aguiar) ou apresentam riscos ambientais (ex. Mina de Urgeiriça – Nelas).

A atenção na manutenção destas estruturas tem conduzido a que diversas Escolas e Laboratórios de Engenharia dediquem tempo e recursos a trabalhos de investigação nesta área.
A título de exemplo, veja-se a quantidade de trabalhos de investigação que se têm feito nos depósitos de estéreis oriundos da Mina da Panasqueira no lugar de Cabeço do Pião, freguesia de Silvares, concelho do Fundão, bem perto do local que serviu de palco à notícia em análise.
Mormente o esforço de investigação, não deixam de ser preocupantes alguns factos de instabilidade que aí ocorrem, fruto de uma diminuição clara das actividades de manutenção das estruturas de depósito.

Entre 2004 e 2007 desenvolveu-se um projecto, financiado através de fundos europeus, que teve como um dos seus principais objectivos o estudo das escombreiras e barragens de lamas na Barroca Grande e do Cabeço do Pião. Nesse estudo verificou-se que as lamas da Barroca Grande, sobre as quais as actividades noticiadas se desenvolveram, possuem teores de arsénio situados entre os 4000 a 130 000 mg/kg e o cádmio registou valores entre 40 e 1500 mg/Kg, isto para exemplificar apenas dois dos vários elementos bastante deletérios existentes nestes depósitos. De referir que, segundo a maioria das normas existentes com orientações para as concentrações máximas permitidas em metais pesados em terrenos industriais, o valor máximo permitido para arsénio é de 12 mg/kg e o de cádmio é de 22 mg/kg.

As barragens de lamas da Barroca Grande têm, imediatamente a jusante, a aldeia de São Francisco de Assis. Em caso de colapso destes depósitos, todos estes materiais com elevadas concentrações em metais, na sua maioria cancerígenos, irão contaminar solos e mananciais de águas superficiais e subterrâneas, podendo vir a afectar em grande escala a saúde dos habitantes da região.

As actuais barragens de lamas da Barroca Grande, ainda em crescimento, são já de dimensão muito superior às do Cabeço do Pião mas um dia estarão, tal como estas últimas, sem actividade mineira produtiva associada.

Escombreiras do Cabeço do Pião

Escombreiras da Barroca Grande

As cicatrizes que as actividades noticiadas vão produzir sobre o talude da barragem de lamas, jamais deixarão de existir. A erosão provocada pela circulação concentrada sobre os taludes desta, formará canais preferenciais de circulação de água pluvial podendo vir a originar, no futuro, ravinamentos que poderão levar ao colapso da barragem, arrastando consigo toneladas de material com elevadíssimos teores em metais perigosos para a saúde pública.

Tal colapso, se um dia existisse, por exemplo, poderia fazer chegar através da rede hidrográfica, grandes quantidades de arsénio e cádmio até à barragem de Castelo de Bode, onde actualmente se capta água para abastecimento da população de Lisboa.

Um outro facto da peça noticiada, que também contribui para a nossa perplexidade, diz respeito às poeiras originadas pela circulação de pessoas e viaturas sobre as lamas depositadas e a sua consequente inalação e incorporação nas vias respiratórios pelos presentes.
Toda a plataforma de lançamento das viaturas todo-terreno, onde estas adquirem velocidade para depois tentarem escalar o talude da barragem superior, é também a superfície de uma barragem de lamas que se desenvolve para cotas inferiores.
Nas imagens exibidas, são bem visíveis diversas nuvens de poeiras do material fino, muito dele com características perniciosas para a saúde humana, envolvendo as pessoas presentes nesta actividade, mesmo que seja só a assistir às mesmas.


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Comentários

    • Desculpa lá, mas o texto que referes não tem qualquer base científica e mais parece uma desculpa esfarrapada para alguns praticantes de motocross continuarem a fazer das suas. Não podemos fechar os olhos só porque a festinha da terra atrai muita gente e enche os bolsos aos organizadores.

      Por Bruno Santos | 11 de Julho de 2011, 15:53
      • conheces a Barroca grande? sabes o que o talude esta a segurar?
        Um campo de futebol e uma escola primaria…

        Por pplcebola.com | 11 de Julho de 2011, 16:08
        • Então mais uma razão para se terem cuidados redobrados. Não percebo em que é que isso invalida (ou sequer questiona) o expresso no abaixo assinado, muito pelo contrário.
          Agora dizer que como o perigo sempre existiu, não precisamos de nos chatear, é que me parece preocupante.

          Por Bruno Santos | 11 de Julho de 2011, 16:22

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